Latim, te quiero.

Olá, bem-vindos à Colmena Assessoria Linguística.

Neste espaço vamos falar de Aspectos Culturais e linguísticos. Ainda que eu trate dos temas de forma breve, espero despertar a “curiosidade” do leitor para ampliar a pesquisa sobre os assuntos expostos aqui.

Quando pensamos em língua estrangeira, um dos aspectos que nos vem à tona-entre outros- são os falsos cognatos ou falsos amigos. Especificamente na língua espanhola há uma chuva de palavras que pode nos confundir e resultar em muitas situações sociais nada confortáveis. Desde o “embarazada” (grávida), “nadie” (ninguém) usado muitas vezes pelos falantes de português como sendo o pronome indefinido “nada” (imaginem confundir “nada” com “ninguém’ em português!), até o uso de palavras com ditongos, como “voy a tomar uma cueca-cola”, acreditem, já ouvi muito!

No entanto, creio que ao menos um “falso amigo” ou uma palavra com ditongos (duas vogais), todos já ouviram, inclusive, quando alguém imita ou tenta falar o portunhol (sim é portunhol!), sempre acrescenta vogais nas palavras: “cuepo” (copo), “buela” (bola), “cuemo” (como, do verbo comer), etc. Por isso, quero então conduzir o leitor a refletir, por que há tantos vocábulos que se parecem e têm significados diferentes?

Caríssimos/as leitores o que vocês sabem sobre o latim? Vocês devem estar pensando, latim, nem se fala mais esta língua. Engano. Falamos todos os dias. Esquecemos que alguns idiomas, como a nossa língua portuguesa, o espanhol, o italiano, o francês, o catalão, o galego e, o provençal provieram do latim.

Segundo o compêndio Ethnologue, há 6 912 idiomas falados atualmente no mundo, destes, apenas oito originaram do latim. Oito derivaram diretamente do latim e outras, tiveram pelo menos, alguma interferência do latim no vocabulário, como o inglês, por exemplo. “Os anglo-saxões, povos germânicos que desembarcaram na Grã-Bretanha em 449 tiveram contato com os romanos e introduziram o vocabulário latino ao vocabulário inglês”. Palavras como: facere (latim)- face (inglês), pax (latim) –peace (inglês),vacare (latim) –vacation (inglês) e muitas outras.

Vale destacar que o latim a que me refiro é o latim vulgar, também chamado latim popular, ou seja, era a variante oral do latim utilizada pelos romanos (cultos e incultos) nas ruas, com a família e em situações informais. Observa-se que há uma tendência geral no mundo das línguas, originarem e evoluírem, a partir de contextos informais e não dos registros mais cultos e formais.

Apesar de já encontrarmos traços das línguas românicas no latim vulgar, foi a partir do século VI que notamos uma decadência do latim vulgar e a partir disso, o surgimento de várias variantes que com o tempo se transformariam na “língua romance”, ou seja, foi a partir da fragmentação do latim vulgar que surgiram as diversas línguas novas, entre elas, espanhol, português, francês e italiano. Esta fragmentação ocorreu devido a diversos fatores:

-Dependendo da época que era colonizado cada território pelos romanos, chegava a cada lugar, um latim, ou seja, novas pronúncias, léxicos, etc., influenciando dessa forma, a língua local.

-A situação estratégica territorial também influenciou na fragmentação do latim. Se as províncias (no caso, Espanha e Portugal) encontravam-se mais distantes do Império, compartiam um maior conservadorismo lexical.

– O nível social e cultural dos falantes também influenciaram na fragmentação e evolução do latim.

– As línguas pré-existentes nas províncias conquistadas também exerceram certa influência no latim, embora geralmente as línguas já instaladas eram substituídas pela língua do invasor, sem dúvida o latim foi influenciado também pelas línguas locais.

Com este pequeno passeio histórico-linguístico, conseguimos refletir melhor de como ao longo dos séculos, o latim modificou-se dando origem, por exemplo, ao português, espanhol, francês e italiano, línguas tão próximas que ao mesmo tempo, possuem diferenças de fonética, de escrita e de léxico. Por exemplo, a palavra “filho”: filius-filium* (latim), filho (português), hijo (espanhol), figlio (italiano), fils (francês).

É importante ressaltar que algumas expressões do latim, são usadas até hoje no dia a dia, sobretudo no Direito: habeas corpus, data venia, curriculum vitae, strictu sensu, etc.

Faltou apenas dizer que a língua espanhola teve influência do árabe (este assunto é para outro texto), grego, francês, inglês, italiano, euskera (vasco) e as línguas ameríndias (Hispanoamericanas).

Como vimos, com a fragmentação linguística e a influência de outros povos, o latim falado não era o mesmo em todas as províncias e por conta disso, originou tantas outras línguas com características diferentes.

Espero ter despertado a curiosidade do leitor em ampliar os conhecimentos sobre as variantes linguísticas,  principalmente, da língua espanhola e ter respondido questões como: O espanhol é igual ao português arcaico? Por que a palavra é hombre e não “homem”? Ou afirmações como: “O espanhol é fácil”, “é só colocar um ditongo entre um vocábulo do português, por exemplo, “fueme” (hambre), “cartón de crédito” (tarjeta de crédito), “Cuepa del mundo” (Copa del mundo ou Mundial), etc. Como já disse, você pode “meter la pata”, isso não é espanhol, é portunhol!

*O objetivo do texto não é tratar as declinações do latim.

Bibliografia:

www.disciplinas/ingles/influencia-do-latim-latim-influenciou-lingua-inglesa.htm -acesso 20/01/22

www.cervantesvirtual.com/obra-visor/el-latn-en-hispania-la-romanizacin-de-la-pennsula-ibrica-el-latn-vulgar-particularidades-del-latn-hispnico-0/html/00f48998-82b2-11df-acc7-002185ce6064_2.html acesso: 20/01/22

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